(Texto sem acentos, por falta de um teclado que bastasse. Esse texto vem tardio - a mim, pelo menos. Ha um bom tempo nao escrevo. Poderia ate ser por falta de inspiracao, mas foi por falta de vontade, e uma circunstancia ou outra que a tenha provocado. Esta ai, pra quem quiser ler.)
Eu lembro que eu tinha muito pra te dizer, e era tudo muito urgente. De suma importancia, quase oficial, o texto escrito num pedaco de papel que eu nem sei se existiu. A parte do papel eu inventei, e claro. Besteira minha, tive vontade de pensar isso e acabei escrevendo, mas o que importa mesmo e que eu tinha uma especie de objetivo, assim, claro como a palavra. E ja era tarde.
O que sai da categoria do relevante, e verdade, mas se eu me preocupar muito com isso, historia nenhuma vai me fazer sentido.
De uma coisa eu tenho certeza: ou eu estava muito irritado ou muito apaixonado por voce. Nao que isso faca alguma diferenca, me desculpe se estou sendo insensivel, mas pouco do que eu senti naquele dia ainda resta.
E ja que estou com vontade de generalizar, vou te dizer o que eu acho. Mesmo com o seus planos e horarios e ordens que nem sao tao excessivos, tudo e nada acontece de repente. De repente se faz amor, de repente tem-se filhos e num triste repente se morre. Tome este caso, por exemplo: havia pouco, o que me movia era voce. Nao havia prenuncio, nenhum pressentimento que me avisasse de algo. A vida toda e sem suspense, amor, mesmo pra voce, perdida em preliminares e planejamentos.
E aconteceu que, de repente, o conheci - mas o que me esqueci de falar e que estas coisas tambem acontecem por pura sorte. So uso "sorte" porque seu significado e a palavra que me falta, talvez aleatoriedade seja o termo certo. Foi por pura soma de fatos desconexos que eu e ele nos encontramos, eu estava a caminho de voce, lembra?
O que pode lhe parecer um obstaculo nao passou de uma boa distracao pra mim - me recuso a chama-lo de outro rumo, um novo passo, tanto porque correria o risco de soar deselegante quanto pelo fato de que as coisas nao foram tao solenes e definitivas assim.
E, no entanto, nao foi um encontro delicado, sutilmente atado por alguma eventualidade, um minusculo desastre que nos unisse ali, onde quer que estivessemos (do lugar, me resta pouco, nao prestei muita atencao a ele, era so mais uma circunstancia). Foi tudo muito prosaico, ola, ola, como vai, como vai, e por ai fomos. Eu poderia ate te escrever que o episodio surgiu de um quase, que se nao fosse por algo insignificante como o fato de que estivessemos um atras do outro, em uma fila, nem teriamos nos visto. Mas vou deixar este texto duro, factual : a coisa toda se arranjou por interesse (raro, no meu caso, e talvez corriqueiro, no caso dele). Fator externo nenhum facilitou nosso contato.
Era vontade, amor. Fora de hora e infelizmente pra voce, era desejo. Bem cotidiano, fragil como um relance. A nao ser por um segundo, o momento inicial. Foi assim com voce, tambem, mas o segundo se estendeu por muito tempo, ate ontem, se eu quiser ser sincero. Em algum ponto de nossa conversa, pensei nele como algo muito mais do ele era. Se eu fosse um outro religioso e pueril, diria que o vi como salvacao, sinal de deus, por mais patetica que essa ideia pareca pra mim. Sendo quem sou, digo, contundente e com certeza, que era mais um entusiasmo que outra coisa. Ele era solucao, termo bem menos mistico e bem mais racional que o equivalente do meu outro eu, o fiel que nao foi.
Nem era pra tanto, bonita, mas bastou isso pra que o meu amor se acabasse. Ele, antes sem nome - e seria correto dizer inexistente - e o motivo do que escrevo, por menor que seja essa causa. Desculpe se te levei a acreditar, no inicio, que esta era uma carta de amor ou algo do tipo. Escrevo porque e bom e porque preciso. O essencial dessa mensagem e que nao amo ninguem, que paixao qualquer em mim esta morta, pelo menos por enquanto. A nao ser por isto que registro no papel. Pode parecer um pouco estupido, mas e amor egoista o que sinto quando escrevo. Assim, num presente de mim para mim, me satisfaco.
O que me move pra que isto exista nao e odio nem traicao nem pura inveja ou ciume, o motivo disto, amor, e o esquecimento.