sábado, 9 de maio de 2009

Fotografia.

Aí vem esse fotógrafo inconveniente, tira a câmera da bolsa e diz Faz uma pose, assim, sem mais nem menos.

Ele acha engraçado que eu esteja aqui. Essa porra dessa raça acha hilário quando você tá num hospital, doença é fotogênica.

É claro que ajuda o fato de eu estar do lado da placa que diz que é proibido fumar, aparentemente porque há oxigênio em uso, seja lá o que isso queira dizer. Acho que se fosse daquelas clássicas, com o cigarrinho e um traço vermelho categórico em cima, ele ia achar que era demais. Erros de composição e essas coisas.

Odeio essa foto. O filho da puta me fez uma bicha aidética, escrota, dessas quase santas, o rosto irritado e um pouco valente, a agulha no braço, aquela camisola ridícula que te dão quando você chega. E eu inevitavelmente magro, mas não muito – o que me faz doente mesmo é o aparato. Não que isso importe, ele pensa enquadramento, equilíbrio, o diabo a quatro e fica tudo por isso mesmo.

Então eu, que não tenho muito que fazer e, se tivesse, não faria, fico parado. Olhando pra lente com aquela cara de desdém que ele me deu como obrigação, tirando meu cigarro de não sei onde e preparando o fósforo.

Daí ao futuro é um clique, um Muito obrigado e um paciente fumando clandestinamente na sala perdida de um pronto-socorro.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Terca-feira.

Para meu irmao.

Esses meninos estao vazios e nao sabem. Entediados e nao sabem. Estao frios e nao sabem. Esses meninos sao pura ignorancia.
Nao nos olhos de sua mae, dos muitos adultos que os rodeiam. Ainda que parecam o retrato da inteligencia, o que lhes sobra mesmo e pura esperteza, habilidade de captar as coisas sem entende-las. Eles sao puro momento, com o tempo vao descobrindo, se fazendo. E e assim que passam a tarde - nao sabendo.
A praca, toda velha e ja mofada, cheira a agua fresca. "Agua de passarinho", dizia Rodrigo, o mais novo, ainda agarrado a barra da calca de Marcos, impedido de crescer mais um pouco pelo nome que insistem em mudar. Ele, mais velho que o menino gordo guiado pelo cheiro e pela cor de sua calca, e sempre chamado de Marquinhos e ainda nao percebe a implicacao desse apelido, mas nao falta muito para que tenha ressentimentos.
E enquanto a cena de fraternidade que os dois formavam poderia seHavia um agravante para a ligacao do cacula ao irmao e do irmao ao primogenito: os tres tinham acabado de descobrir a morte, e do pior e mais complicado jeito: por ideia. Tinham lhes explicado que as pesssoas, por algum motivo desconhecido e absolutamente necessario, paravam de viver, assim, sem mais nem menos. Era um problema muito besta e bastante aterrorizante, ao mesmo tempo, como acontece com a maioria das descobertas das criancas.
Julio, o mais velho do trio, provavelmente por causa das aulas de matematica, presumiu que se morria no dia do proprio aniversario, e de fato havia perguntado a seu pai em qual deles ele, entao o mais bonito e mais fraco dos tres, morreria. Netsa tarde ele faz calculos, ainda que sem muito afinco. E natural que nao consiga se concentrar por muito tempo, infancia e assim, muito dispersa. O bom e que nao tinha medo. Talvez por falta de inteligencia. Ou por falta de incentivo. A verdade e que era o menos afetado.
Marcos, por sua vez, ja se sentia um pouco ameacado. Nao entendia o fato por completo, o que nao era nenhuma excentricidade. As perguntas que fizera a seu pai foram "Pai, morrer doi?" e "Como e que acontece?", para logo depois questionar se o fenomeno poderia ser impedido. Pela resignacao do interlocutor, logo percebeu que isso nao seria possivel. O que lhe restou foi um esquecimento muito vago, nem isso ele aprendeu a fazer direito, estao todos em desenvolvimento. Caminho pleno, e verdade, mas caminho mesmo assim.
Era natural que se aliasse ao irmao cacula, o que mais se consumia pela doscoberta da mortalidade. A mao agarrada a roupa de Marcos e mais que um pedido de orientaco, e uma tentativa de seguranca. E uma verificacao constante de que o irmao ainda existia, que ele mesmo nao tinha sido exigido pelo que devia ser o monstro que mantinha o fim. E ele o que tem os olhos arregalados, abertos e alertas em terror.
Mas a verdade e que a cena nao era tao densa assim. O espaco da feira e das arvores nao tem muito que constitua um cenario tetrico, a nao ser a funeraria que fica em uma das esquinas proximas, que nem pode ser vista de onde se observa o dia. Fora o fato de que os pequenos mantinham toda a tensao la no fundo - nada viria a tona. O que se ve sao tres criancas puxadas pelo braco da mae, numa tarde de feira. E o que se ve agora sao os meninos percebendo tres baloes, cada um de uma cor, perdidos e erguidos no ar. E ainda que toda a questao que os preocupava fosse importante, o que poderia se tornar angustia se acabou ali, em tres pedacos de borracha, seguros na mao de um homem de meia idade.
O primeiro fisgado foi Julio. Era provavel que acontecesse assim, ele era o mais fragil, nesse quesito. Os outros dois, presos e unidos pela fatalidade que os apavorava, se distraiam pouco e faziam pouco do que nao fosse aquela morbidez leve, irresponsavel. Mas desejo nenhum tem hora, e apos Julio, Marcos e Rodrigo ja haviam sido arrastados.
O pedido era inevitavel:
-Compra um, mamae.
Seria ate possivel julgar o comportamento dos meninos como futil, mas a reflexao deles nao passava do essencial: um medo irracional, algumas contas e tres ou quatro perguntas . A vida deles nao passa de uma temporada de sono e alimentacao suficientes e, de vez em quando, excessivas. Sentem amor, e verdade. Mas de leve - nao ha nada mais profundo que isso. Tres baloes como solucao, portanto, nao sao nada mais que comum a eles - a vida desses meninos e, em grande parte, superficial, de manha um beijo da mae, nas tardes de terca um passeio na praca.


* * *



Os brinquedos, cheios de helio e frouxos nas maos dos tres, agora ja saem da praca. Tomam o rumo de casa. Isto e, a nova casa que lhes arranjaram, eles que nem pensam, eles que nao passam de baloes. De volta a vida de sono e preguica.
E nessa vida que Rodrigo, sentado na sala, observa os brinquedos. Pensa, no fim desse dia, que os baloes, cada um em uma altura, ja um pouco murchos, ja um pouco mortos, sao a coisa mais tediosa que ele ja viu. Seus irmaos, ao seu lado, provavelmente pensam a mesma coisa, mas estao todos muito cansados, quase deitados no sofa, a beira do sono.


Esses meninos nao sabem que o dia de hoje nao significa nada alem de uma nostalgia futura, uma coisa boa de se lembrar. Esses meninos nao sabem que tudo o que resta e dormir, sem significado.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Sem titulo.

Cheiro de asfalto aberto em madrugada
voce me fala Nada
e eu te digo Nao

No meio a rua suja toda muda
voce me chama Puta
e eu so sinto chao

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dois.

Ultimamente o meu interesse e a relacao. Assim mesmo, como um termo amplo e absolutamente vago. Depois de tanto tempo escrevendo sobre o um, e naturla que eu queira que meus contos sejam, finalmente, "multiplos".

Dois.

-Voce quer casar?

Ela tentava iniciar o tipo de conversa que se le em livros. Qualquer dialogo que tivesse a origem nela tinha uma pretensao literaria falsamente despretensiosa, o que acabava por trabalhar contra ela, ele era tao seco e desinteressado nesse tipo de conversa quanto um namorado poderia ser. Havia um pequeno problema na questao, no entanto:

-Nao agora, e claro. O que eu quero dizer e se voce quer casar um dia.

-Nao sei.

-Como nao sabe? E claro que sabe, vamos, responda.

-Nao.

-Nao o que?

-Nao quero me casar.

Nao era isso o que voce tava me perguntando?

-E.

-Entao: nao.

Ela nao poderia dizer que estava surpresa. Marcou-se em seu rosto, entao contrafeito, o obvio sinal de que nao so fora contrariada como ficara terrivelmente embaracada. Nesses momentos, arrumava uma expressao e se fazia descontraida. O engracado e que a farsa era dolorosamente acreditavel: passava tanto tempo preocupada e desconfortavel que era no falso que os desconhecidos viam o honesto. Ele, ainda, afogado numa abstracao que, de tao facil e tao forte, chegara sem muito aviso, resolveu dar a ela um pouquinho de atencao, ainda que nao valesse muito. Seria com muito tato, no entanto, que ele falaria a proxima frase:

-Mas por que voce me perguntou isso assim, do nada?

-Esqueci. - declaracao sustentada por pouco mais que um momento - Alias, lembrei. Foi por causa de um programa sobre noivas na teve ou algo assim. E pior: acho que nao era nem sobre noivas, o programa era sobre a experiencia do primeiro vestido de casamento, se eu me lembro bem, era tudo muito branco e muito besta. - nova pausa, dessa vez para a ponderacao sobre a da proxima frase - Ai eu tive vontade de ser uma daquelas mulheres. Sabe? Agir como se a minha vida dependesse de algum tecido, um tipo de veu, um sapato branco. Voce nunca teve vontade de ser bobo?

-Nao.

As coisas estavam terrivelmente erradas, ou ao menos era essa a sensacao que ela tinha. Tudo isso por causa de uma conversa. E uma injustica a quem acabou de conhecer, mas ela tem a mania de exagerar as coisas. Decididamente dramatica, desconfiou que a citacao de um programa de teve tivesse sido inoportuna, certeza obtida logo que o ato se desatara. O rosto do garoto que a segurava, enrolado em lencois velhos e amassados, parecia mais desinteressado que o conveniente. O que ela temia, apesar disso, era que ele a achasse leviana, calculada, o que combatia com frios passos, duros atos. A garota sabia que devia moldar o dialogo, por mais inutil que fosse a tentativa.

-Mas agora que eu penso no assunto, talvez eu tenha sonhado. Nao tenho certeza. Esses dias tudo parece fantastico.

-Voce esta comecando a soar idiota, querida.

Ela fingiu nao ter ouvido o comentario, pelo bem dos dois. Estava sempre fazendo esse tipo de coisa, salvando esse tipo de homem. Ou assim achava - havia sempre a possibilidade de que estivesse enganada. Ele tinha razao, tambem. Mas nesse ponto, como a maioria das coisas que ela fazia, ja nao adiantava tentar refazer ou desdizer qualquer erro que fosse. Afetada por um arrependimento constante, sabia que teria que continuar a fala, amarrar a conversa:

-Vamos, amor, fala comigo.

Ele, por sua vez, ignorou o vocativo que era um pouco impreciso, e falou com ela:

-O que voce quer que eu diga? Eu so quero ficar quieto.

-Eu quero que voce faca ou fale alguma coisa a mais.

-Sei la, eu nao tenho sonhado ultimamente.

-Eu sempre sonho.

-Eu nunca lembro.

sábado, 29 de novembro de 2008

Três.

  • (Texto sem acentos, por falta de um teclado que bastasse. Esse texto vem tardio - a mim, pelo menos. Ha um bom tempo nao escrevo. Poderia ate ser por falta de inspiracao, mas foi por falta de vontade, e uma circunstancia ou outra que a tenha provocado. Esta ai, pra quem quiser ler.)
Eu lembro que eu tinha muito pra te dizer, e era tudo muito urgente. De suma importancia, quase oficial, o texto escrito num pedaco de papel que eu nem sei se existiu. A parte do papel eu inventei, e claro. Besteira minha, tive vontade de pensar isso e acabei escrevendo, mas o que importa mesmo e que eu tinha uma especie de objetivo, assim, claro como a palavra. E ja era tarde.
O que sai da categoria do relevante, e verdade, mas se eu me preocupar muito com isso, historia nenhuma vai me fazer sentido.
De uma coisa eu tenho certeza: ou eu estava muito irritado ou muito apaixonado por voce. Nao que isso faca alguma diferenca, me desculpe se estou sendo insensivel, mas pouco do que eu senti naquele dia ainda resta.
E ja que estou com vontade de generalizar, vou te dizer o que eu acho. Mesmo com o seus planos e horarios e ordens que nem sao tao excessivos, tudo e nada acontece de repente. De repente se faz amor, de repente tem-se filhos e num triste repente se morre. Tome este caso, por exemplo: havia pouco, o que me movia era voce. Nao havia prenuncio, nenhum pressentimento que me avisasse de algo. A vida toda e sem suspense, amor, mesmo pra voce, perdida em preliminares e planejamentos.
E aconteceu que, de repente, o conheci - mas o que me esqueci de falar e que estas coisas tambem acontecem por pura sorte. So uso "sorte" porque seu significado e a palavra que me falta, talvez aleatoriedade seja o termo certo. Foi por pura soma de fatos desconexos que eu e ele nos encontramos, eu estava a caminho de voce, lembra?
O que pode lhe parecer um obstaculo nao passou de uma boa distracao pra mim - me recuso a chama-lo de outro rumo, um novo passo, tanto porque correria o risco de soar deselegante quanto pelo fato de que as coisas nao foram tao solenes e definitivas assim.
E, no entanto, nao foi um encontro delicado, sutilmente atado por alguma eventualidade, um minusculo desastre que nos unisse ali, onde quer que estivessemos (do lugar, me resta pouco, nao prestei muita atencao a ele, era so mais uma circunstancia). Foi tudo muito prosaico, ola, ola, como vai, como vai, e por ai fomos. Eu poderia ate te escrever que o episodio surgiu de um quase, que se nao fosse por algo insignificante como o fato de que estivessemos um atras do outro, em uma fila, nem teriamos nos visto. Mas vou deixar este texto duro, factual : a coisa toda se arranjou por interesse (raro, no meu caso, e talvez corriqueiro, no caso dele). Fator externo nenhum facilitou nosso contato.
Era vontade, amor. Fora de hora e infelizmente pra voce, era desejo. Bem cotidiano, fragil como um relance. A nao ser por um segundo, o momento inicial. Foi assim com voce, tambem, mas o segundo se estendeu por muito tempo, ate ontem, se eu quiser ser sincero. Em algum ponto de nossa conversa, pensei nele como algo muito mais do ele era. Se eu fosse um outro religioso e pueril, diria que o vi como salvacao, sinal de deus, por mais patetica que essa ideia pareca pra mim. Sendo quem sou, digo, contundente e com certeza, que era mais um entusiasmo que outra coisa. Ele era solucao, termo bem menos mistico e bem mais racional que o equivalente do meu outro eu, o fiel que nao foi.
Nem era pra tanto, bonita, mas bastou isso pra que o meu amor se acabasse. Ele, antes sem nome - e seria correto dizer inexistente - e o motivo do que escrevo, por menor que seja essa causa. Desculpe se te levei a acreditar, no inicio, que esta era uma carta de amor ou algo do tipo. Escrevo porque e bom e porque preciso. O essencial dessa mensagem e que nao amo ninguem, que paixao qualquer em mim esta morta, pelo menos por enquanto. A nao ser por isto que registro no papel. Pode parecer um pouco estupido, mas e amor egoista o que sinto quando escrevo. Assim, num presente de mim para mim, me satisfaco.
O que me move pra que isto exista nao e odio nem traicao nem pura inveja ou ciume, o motivo disto, amor, e o esquecimento.

sábado, 11 de outubro de 2008

Lento pensamento ou Diferente.

Vamos combinar?
Toda vez que uma música acompanhar um
texto , vocês já sabem: é trilha sonora. Texto antes e som depois ou som antes e texto depois. A música não é essencial, mas é boa porque cria atmosfera de leitura. Ou assim eu penso.


..........
Vamos, que agora é o momento da solitude sem drama. Indiferente a cadência, o compasso marcado, nem forte nem fraco. Vamos, Silêncio - hoje não sou nem feliz nem triste, e é provavelmente a melhor coisa que me aconteceu.
..........Tem quê de sono, este isto, o gosto de preguiça aprisionou-se em minha boca e é só isso o que eu sei dizer. Eu que nem falo agora, só sigo o caminho do carro, deixando pensamentos à deriva, inacabados, bonitos que nem vidro quebrado. Que não brilha - é pó transparente pisado no asfalto.
..........E de repente eu sinto vontade de frases grandes, sem suspiros nem escrita. Seguir falando e parafraseando a rua inteira. Pura volúpia aleatória.
Agora há pouco quis falar com meu amor e respirar o beijo dele. Eu beijo assim: respirando. Veja só: não é suspiro, eu só respiro. O ar entra, sai, e eu fico.
Não sei se é por causa do movimento, mas não me concentro. Assunto atrás de assunto se faz frágil, quebra e some de mim. Linearidade não é meu forte, quem quiser o contínuo que ouça uma música.
..........Ah, e esse prazer. Irremediável - não tive nem que resistir, um sobreaviso me esqueceu e deixou isto.
..........Banalidades, por favor, que o coração agüenta pouco, e este mormaço é bom demais pra ser manchado.
..........Isto é puro ócio. Fatal, também. Se avistar alguém, vou ter que dizer, inventar. Aquele que queria inspiração eu fiz frustrado. Pois isto é seco, esturricado.
Chegando a meu ponto, eu saio do ônibus e atravesso o resto da rua silente. Depois profusão, confusão de vozes e de rostos. Depois o mundo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sim ou Falemos de sexo.

..........A primeira versão desse texto já nasceu morta. Cheia de maneirismos e bastante pomposa, dela só resgatei duas ou três falas de A., e, no final, não sei se fiquei satisfeito com o diálogo. Mas, da segunda, vez, fui criando um gosto pelo escrever do texto. A primeira parte eu fiz com um pouco de estranheza, a segunda, com frieza que talvez não tenha sido suficiente e a terceira foi puro mar, pura onda chegando à orla.
..........Gostei muito de ter postado outro texto meu com as músicas que inspiraram a atmosfera de cada parte. E novamente coloco trilha sonora numa postagem, mas na ordem inversa: ou seja, o texto veio antes, a escolha das músicas veio depois. Acho que deixa a experiência do texto completa e "manipula" (no bom sentido) a leitura do conto, sem que ele fique restrito. Enfim: cada parte é introduzida por uma música. No caso de Eros e Thanatos, apesar de serem faixas diferentes, funcionariam como uma faixa só, ininterrupta.
..........Aproveitem (ou não)..........P


..........Sim, alguém disse. E isso mal importara. Dali a pouco, com fúria e excitação, haveria tantos Sim que a impressão que se tinha era a de que o acordo fora feito em coro, vozes de garotos e garotas em consenso afiado. Em meio à nudez e o jogo de luz e sombra gratuito que a noite fazia à cena, eles estavam.
..........C. só percebeu que o silêncio fora insuportável quando a coisa realmente aconteceu. Coisa, sim, é desse jeito que chama o episódio, C. é um jovem que sempre teve um pouco de medo do físico absoluto que eram aqueles corpos. E a quietude do quarto só se tornara insustentável quando se desfez em presságio. Aconteceu assim: numa profecia invertida, o fato fora percebido antes do anúncio. O que lhe dificultava a digestão pensava que o pressentimento era redundante.
..........Mas esse não era o problema. Definitivamente embaraçado, C. não entendeu muito bem como se dera o desconforto que tomou conta de si. O que sentia na boca do estômago geralmente vinha rápido, como um soco bem colocado que deixava a vítima sufocada num instante. E o que sentia era um corte que rasgava bem devagar, tornando em gelo o que trespassava, o sufoco rasgado. Sentia-se todo rígido e horrorizado. O que o irritava um pouco. Era mais que desconforto, aquilo, era repulsa, pura aversão. E um terror tão engraçado – de repente, cada peça despida era motivo de assombro, cada pele que ascendia, um ato hediondo. E ele ali, a princípio imóvel, a princípio mudo. Não demorou muito para que se afastasse, no entanto – quanto mais nudez se mostrava, mais ele tentava se esconder. Até que, muito envergonhado, saiu do quarto, acompanhado pelos passos desinteressados de A..
..........Já fora do próprio prédio, separado por vários andares do que acontecia, C. insistia em imaginar. Sabia que não havia muita lógica nessa atitude, saíra do lugar exatamente porque não queria ver nada. Se a atitude não fosse ridícula, fecharia os olhos, colocaria as mãos em frente ao rosto ou se trancaria no banheiro do apartamento de seu amigo. E, ainda assim, sabia que a proximidade seria demais. Como se, por ramos invisíveis, estivesse relacionado aos gemidos que ouviria do outro lado da parede.
..........Sentado no meio fio da rua excessivamente iluminada, C., numa tentativa de se arrancar da estupefação em que se encontrava, arregaçou as mangas para ver as horas. A. continuava por perto, ainda quieto, fumando um cigarro que havia tirado não se sabe de onde.
..........Duas horas da manhã. Duas horas da manhã e a noite imóvel como o mundo em ano novo – um segundo inteiro de espera, o dia que não desatava, a manhã que não vinha. E a fumaça do cigarro rodopiando devagar, sedutora. Imaginou logo que, rarefeita, talvez fosse inspirada pelas pernas, pelas línguas, pelas bocas que já transpiravam em orgasmos descompassados.
..........Ainda procurando o que fazer, fabricando gestos cotidianos que desviassem A. de seu visível nervosismo, C. coçava os restos da barba que ainda crescia em seu rosto, penugem falha e volátil. Após algum tempo se recuperou, levantou-se da calçada e olhou para A..
..........Ele que não tinha o corpo magro demais e alto demais de C., que tinha a estrutura sólida de um homem adulto, braços e pernas robustos, o rosto retilíneo e curvo em pontos exatos e concordantes. Quase um desenho, C. pensava, o pó do grafite o definindo e o envolvendo.
..........Era bonito. Não que isso adiantasse alguma coisa, beleza qualquer lhe parecia inútil, àquela hora, naquele asfalto. E no entanto ele começava a se sentir leve, vazio de toda a reação que se desencadeara em seu corpo, sua alma. Talvez tudo aquilo por causa de uma beleza, ele assustado com o que não o enojava – que, por mais que tentasse pensar o contrário, não só o surpreendia, era mais que isso, tinha certeza. E menos que sexo, o que havia ali era um afeto inesperado.
..........C. se perdera tanto em seu amigo que a imagem ficara gravada, ali, parada, em pé, na calçada, o cigarro na mão e o fumo saindo da boca. Só percebeu que A. tinha mudado de posição quando sentiu no volume denso e encaracolado que era sua cabeça um pequeno afago, circunvolução de dedos se fazendo e desfazendo rápida a preocupação.
E depois, em pergunta disfarçada de afirmação ou vice-versa, a mão que acalentava lhe falou:
-Vem, vamos andar.

-Pra onde a gente vai?
-Não sei, a gente pode ir beber, encontrar um bar qualquer e sentar.
-Por quê?
-Eu porque tenho tédio e você porque teve um susto – vai, levanta.
-Ok.
-É bom que a gente anda e você se acalma um pouco.
-Eu não tô nervoso.
-Não?
-Talvez sim. Quer dizer, você não ficou nem surpreso?
-Na verdade, não. Quando pensava no assunto, bem de vez em quando, eu achava que só seria inacreditável, nada mais. São pessoas. Mais que duas, mais que três, mais que quatro pessoas transando, e não é tão incrível quanto eu tinha imaginado.
-Sinceramente?
-Sim. Pode parecer estranho, mas o máximo que pude fazer foi achar aquilo tudo muito engraçado, Júlio insistia em usar a palavra “trepar” e todos estavam bêbados demais pra perceber o que falavam ou o que faziam.
-É isso que eu não entendo: você fala como se nada tivesse acontecido. Você não achou nem um pouco extraordinário?
-Não muito, a gente viu isso tudo nos filmes, nos livros, em qualquer lugar que seja. A diferença é que agora é real. Não é como se a gente estivesse participando do ato, só assistimos ao começo. Por sinal, você tá assustado demais pra quem viu só o começo. Se a gente continuasse, aí sim, se a gente ficasse ali, assistindo, esperando, sem jeito e sem graça por estarmos parados, eu ficaria horrorizado, chocado, violado, escandalizado por tudo, ou qualquer outra coisa que soe insuportavelmente puritana ou insuportavelmente adolescente.
-Tudo bem, não precisa ser grosseiro.
-Ah, desculpe. É que eu acho muito bobo esse seu tremor, esse seu espanto. Pensei que você fosse desmaiar quando eles começaram a tirar a roupa.
-Você disse dos filmes. O problema é que por mais que tenham tentado fazer do sexo algo muito pífio e muito fútil, quando eu via aquelas cenas eu só me lembrava do quanto ele não era e nunca foi isso pra mim. Quer dizer, eu sempre vi assustado. Isso quando era um casal, e era tudo arfar e seriedade. Eu encarava a coisa até com solenidade, tudo menos essa indiferença que você mostra.
-Eu, sei, mas eu não te perguntei isso. Vai, pede a tua bebida. O que você quer, cachaça? Ou você acha grosseiro demais? Quer beber uma coisa mais vaga, menos bebida, menos real?
-Não quero nada.
-Você é que nem uma criança, não é?
Silêncio.
-É isso mesmo, você é exatamente uma criança.
Silêncio.
-Bebe. Reage. Ou então abre a cara, só não fica nesse marasmo.
-Tá. Pede a cachaça.
-Duas doses, por favor.
-Agora a gente espera.
-Você não entende, não é? Cada vez mais você me assusta. Foi assim, da última vez, e eu nem lembro o motivo por que você ficou chateado. Você se perturba demais, se importa demais. E vai ficando pálido, espantado mesmo quando não tem uma orgia acontecendo num apartamento em que você estava há pouco tempo, o que, eu entendo, pode ser bastante traumatizante, dependendo das circunstâncias.
Silêncio.
-E esse silêncio. Você que era tudo menos quieto, calado. Você que falava demais, pedia demais. Não tô acostumado com esse jeito, agora eu tenho que encher a nossa conversa, violar as entrelinhas. E você apático. Como é, não vai dizer nada?
-Vira o copo, vai - bebe.

..................................................
..........Doze doses depois e A. continuava sóbrio, contra todas as possibilidades. Tentara com bastante afinco se perder no brumo forte que a cachaça recendia e só encontrara no fundo do último copo um fracasso retumbante, a palavra lhe lembrando um barril velho em que a pinga envelhecera. O máximo que a bebida lhe fez foi atormentar a cabeça, agora vazia como um balão que pouco a pouco se fez derrotado, o hálito ácido, que de vez em quando fazia seus olhos lacrimejarem.
..........E C., ele inteiro parecendo um balão derrotado, vazio. A cabeça em repouso ou desmaio na mesa do bar - era difícil distinguir as coisas com tanta clareza, principalmente quando A. mal tinha forças para manter os olhos abertos. Teimosia. Pois insistia em mantê-los alerta, com o pouco de força que tinha.
..........Meio aéreo, A. pensou que o amava. Não era à toa que se preocupava tanto com o amigo, gostava muito de sua companhia. E nos últimos tempos C. se tornara fumaça, muito vago e muito incerto. Era derrota que ele via em seu rosto, quando chegava à faculdade, e talvez nem isso: o que mais o irritava era que não parecia haver nada ali. Como se a face de seu amigo tivesse a obrigação de traduzi-lo e expressá-lo assim, em pouco mais que um relance. ..........Talvez até um olhar de soslaio bastasse.
..........A. tinha quase certeza que era depressão o que lhe acontecia. Mas odiava o termo. Preferia o triste, o infeliz, jamais o deprimido, o depressivo. Num jogo hábil de palavras, o problema de C. lhe parecia menos sério, tristeza não era e nunca seria condição clínica. Seria pedaço de vida. Um pouco morta, é verdade, de leve sofrida. Mas vida, e era isso de que A. precisava em C..
..........Sem mais o que pensar, e esperando que qualquer coisa que fizesse forçasse C. a acordar melhor, a acordar mais vibrante, A. fez dos cachos de seu amigo torvelinhos domados em sua mão. Nem otimista era necessário que despertasse - o que, em verdade, sempre fora. Bastaria que acordasse falando, seu rosto lhe respondendo algo.
..........Esperou bastante. Já passava das quatro da manhã e A. conseguia ver algo que, num raciocínio arbitrário e conveniente, poderia ser chamado de quase-luz, por mais que a noite continuasse tão escura quanto antes. Sabia que era o pressentimento de um sol que não tardaria em vir, mas mesmo assim se fazia acreditar que era a coisa mais lógica que já havia percebido.
..........Com a quase-luz, C. dava sinais de que iria acordar. A. falou baixinho e com pressa no ouvido de seu amigo uma pergunta:
-Quer ir pra casa?
..........E o outro, com um pingo de sono e uma satisfação finalmente visível, respondeu:
-Sim.